“Eu não vou falar prà máquina”

Em Outubro, durante a Convenção MIL 2025, estivemos à conversa com o rapper Xullaji. Falámos de música e de classe, de teatro e associativismo, da força que um corpo pode transmitir, do imediatismo da sociedade em que vivemos…  E sobre como as plataformas de distribuição de música estão a contaminar o acto de criar.

Chama-se Nuno Santos, conhecêmo-lo a cantar rap como Chullage no início dos anos 2000, e mais recentemente passou a apresentar-se como Xullaji, para se aproximar da fonética da língua crioula. Nasceu em Lisboa três anos depois do 25 de Abril, mas prefere dizer que é “de origem cabo-verdiana e criado na Margem Sul”. É filho de mãe e pai cabo-verdianos e cresceu no Asilo 28 de Maio, em Porto Brandão, que nos anos 1970 foi casa de muitas famílias que vieram das ex-colónias portuguesas em África.

Um daqueles testes psicotécnicos que se faziam na escola nos anos 1990 empurrou-o para o curso de torneiro mecânico. Trabalhou na fábrica da Autoeuropa e licenciou-se em Sociologia do Trabalho. Tudo coisas que parecem não ter nada a ver, mas têm tudo a ver com a música que faz. Vive e trabalha na Arrentela, no concelho do Seixal. E é um dos melhores letristas portugueses, embora essa informação não apareça escrita em lado nenhum.

Feita a apresentação, e antes de começarmos, houve uma ressalva: “ Olá, pessoal. Obrigado por estarem aqui. Só uma coisa: a minha língua não é crioula, chama-se língua cabo-verdiana, está bem? Já saiu da fase de ser crioula para ser uma língua que tem tanto estatuto como tem o português, o inglês ou o francês. Cabo Verde é um país onde se fala a língua cabo-verdiana.”

E quando a organização do evento lhe pediu para articular as palavras “pausadamente”, de modo a que o sistema de tradução automática conseguisse processar a conversa, tornando-a acessível em língua inglesa, não hesitou um segundo na resposta: “Eu não vou falar prà máquina! Não quero deixar a minha condição humana e a minha expressão orgânica nas mãos das máquinas.”

A conversa começou em seguida. Pode ouvi-la na íntegra aqui ou na sua aplicação de podcasts.

ALGUNS NOMES QUE VAI OUVIR DURANTE A ENTREVISTA

Prétu: projecto artístico que nasceu da necessidade de ter uma expressão musical e visual próprias. Sintetiza aquilo que são as suas influências: música de intervenção de Cabo-Verde e Angola e música electrónica em geral — drum and bass, house, techno.

Peles Negras, Máscaras Negras: grupo de “teatro do escurecimento” do qual Xullaji é co-fundador. Através de discussões horizontais, o objectivo é promover a reflexão sobre as realidades da comunidade africana que vive nas periferias. O nome é uma subversão do título do livro Pele Negra, Máscaras Brancas de Frantz Fanon.

Tabanka Sul: espaço de ensaios, produção, convívios, debates na Arrantela, Seixal. As portas estão sempre abertas para receber o “pessoal da zona”, convidando-o a produzir ou a ensaiar.

Khapaz: associação de apoio social que Xullaji co-fundou na Arrentela.

Álbuns: Rapresálias | Sangue Lágrimas Suor (2001); Rapensar | Passado Presente Futuro (2004); Rapressão (2012); 1 prétu. xei di Kor (2023).

 

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