Tudo isto existe, tudo isto é bicha, tudo isto é fado

O fado que se segue não exige silêncio para ser cantado. “Podem bater palmas, dançar, tirar a roupa, fazer o que vos apetecer.” Quem o diz é Lila Fadista, uma travesti de barba rija com um corpo de quase dois metros que transpira ginga e provocação. Uma “bicha activista” que está coberta com duas camadas de tule com as cores do arco-íris. Estamos no bar da Galeria Zé dos Bois, no número 49 da Rua da Barroca, no Bairro Alto em Lisboa. É aqui que Lila, a fadista, e João Caçador, o guitarrista, actuam uma vez por mês, ao sábado. Juntos formam o Fado Bicha, uma banda que rompe os padrões da canção-hino portuguesa e traz as estórias de lésbicas, gays, bissexuais, trans e interssexuais (lgbti) para o Fado, classificado em 2011 Património Imaterial da Humanidade, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.

“Eu sou a Lila, sou a vocalista do Fado Bicha, e quero dar-vos as boas-vindas a uma noite de delícias que é o que nós temos para vocês hoje. Enquanto homossexuais, nunca nos sentimos representados nas letras das canções. Como sempre gostámos muito de fado, quisemos torná-lo numa ferramenta de expressão, para nós, e de visibilidade para a nossa comunidade.”

Enquanto Lila brilha em primeiro plano, João Caçador está sempre atrás, como se fosse a sua sombra. Ela, tentadora, em sintonia com a volúpia de umas ancas que bamboleiam ao som da música. Ele, um galã discreto. A guitarra eléctrica dá de si, ouvem-se os primeiros acordes de “Crónica do Maxo Discreto”, uma adaptação de “Nem às paredes confesso”, escrita por Artur Ribeiro e popularizada por Amália Rodrigues. Com uma voz grave, daquelas que impactam, Lila dispara ao microfone:

“Para todos os machos sigilosos, para todos os ‘straight acting’ que há nesta sala – que eu sei que os há -, para todos os casados discretos, aqui está a vossa crónica.”

“Estás a cem metros de mim
no Cristo Rei
Não mando fotos assim pois não sou gay.
Só quero experimentar novos desejos.
Mas sem nos vermos,
pouco dizermos,
E nada de beijos!
De quem eu gosto é da minha namorada!
Vá lá, entende, ela não pode saber de nada.
Não mandes mais mensagens
Que eu vou apagar o Grindr
De quem eu gosto é da minha namorada!
Ontem foi mesmo rés-vés…
Mas ela não viu.
Não pode haver mais cafés junto ao rio.
Pára de falar de amor! Eu não sou mau…
A culpa disto,
Digo e insisto,
É do meu pau!”

“A casa está uma confusão, mas pronto, vamos para a sala. Um brinde, à nossa! Não sei se temos vinho suficiente para o que aí vem…”

Meia hora depois, João Caçador toca à campainha e junta-se à conversa. João conhece bem o mundo da fadistagem: actua em casas de fado tradicionais, faz roteiros turísticos sobre o tema, em Lisboa, e lançou em Janeiro o primeiro single em voz própria – “Amor sem lugar”, com música de Mário Laginha. A amizade com Lila começou há um ano, quando o guitarrista, licenciado em Jazz e Música Moderna, perguntou a Tiago Lila, formado em Psicologia, se queria marcar um ensaio.

Lila: “Eu fiquei excitadíssimo porque fazia aquilo à capela com uns instrumentais manhosos, mas não era uma coisa sustentável. Dava-me prazer, mas era preciso mais. Combinámos encontrar-nos e ele disse-me: ‘Então canta lá…’ Fiquei cheio de vergonha e não quis cantar.”

João: “Fez birra.”

Lila: “Não fiz birra, mas estava bué nervoso. Depois lá cantei.”

João: “Fizemos um ensaio e, a partir daí, completamente irmãs, BFF’s. Falámos logo de tudo: dos amores, dos desamores, das traições…”

João: “Ele achou-me um gato. Verdade ou mentira?“

Lila: “Não, não achei nada.“

João: “Não me achaste super gato?“

Lila: “Ah, não! Isso achei…“

Mexericos à parte, foi assim que João e Lila vestiram uma roupa nova ao Fado e lhe deram um segundo nome: Bicha. Bicha porque não é tradicional. Bicha porque dá a cara e não tem medo. Bicha porque não tem vergonha de ser quem é. As melodias são as mesmas de sempre, mas têm arranjos originais introduzidos pela guitarra eléctrica, que faz as vezes da guitarra portuguesa e da viola. Quanto às letras, a maioria foi adaptada pela cantautora que introduziu novas palavras, reformulou versos inteiros e também já escreveu dois poemas de raiz.

“O fado está assente em quatro pilares: a melodia, a harmonia, o ritmo e a letra. O seu principal papel sempre foi o de contar uma estória – da cidade, do amor, do desamor. E nós fazemos isso: contamos estórias. Só não são as estórias expectáveis, heteronormativas…. recebemos muitas mensagens de ódio nas redes sociais, muitos fadistas nos dizem que aquilo que fazemos não é fado. Tenho uma explicação muito própria para isso: as músicas que tocamos têm o reportório do fado, se as pessoas não lhe quiserem chamar assim, pouco me importa. Não é fado, mas é Fado Bicha”, explica João Caçador enquanto Tiago Lila se maquilha e faz sobressair os olhos pequenos e rasgados que vai carregando de lápis preto.

A corça que Tiago tem tatuada no braço evoca o triângulo cor-de-rosa invertido que os homossexuais eram forçados a usar nos campos de concentração nazis.

“As palavras podem ser muitas coisas, dependendo da forma como são ditas. O que nós fazemos é pegar num termo conotado como pejorativo e usá-lo como forma de insurreição, de catarse. Transformámos a palavra bicha – que durante tantos anos nos atormentou, por estar associada a uma aberração, a algo que é desprezível, a um saco de bater – e tornámo-la num instrumento de luta. Eu sou bicha e sou bicha orgulhosa. Não são todos os homossexuais que são bichas e um heterossexual também o pode ser. Para ser bicha é preciso ser corajosa. A Amália era uma bicha gigante porque rompeu com muitos padrões no fado: foi a primeira a cantar Camões, ‘apedrejaram-na’ em praça pública por ter feito uma adaptação de um dos seus poemas”, explica João Caçador.

“E muitos homens homossexuais e travestis também nos enviaram mensagens de ódio, inclusive a Belle Dominique, uma personagem drag que fazia televisão nos anos 90… mas mensagens mesmo a dizer ‘tenham vergonha, vocês estão a denegrir a imagem do transformismo’ com palavras tipo ‘aberração’, ‘deviam ter vergonha’”, acrescenta Tiago.

Há o fado verdadeiro, o travesti verdadeiro e o Fado Bicha. Por esta altura, também já se devem ter perguntado se Tiago Lila e Lila Fadista são a mesma pessoa. Lila, nome de mulher e ao mesmo tempo apelido. Lila, o nome que em criança rejeitou por ser uma “dupla maldição”, é o mesmo que hoje enverga com orgulho. Tiago Lila é Lila Fadista quando sobe ao palco. Por isso, a resposta à vossa pergunta é “sim, dependendo do contexto”.

“Lila, pila, larila, podem imaginar… já não bastava ser gay ainda tinha de me chamar Lila. Eu sou o Tiago Lila e a Lila Fadista é a postura que eu assumo quando estou em palco. Não é um personagem, é só a maneira como me expresso. Nós não temos todos a mesma postura em todos os contextos onde actuamos: com a família, com os amigos, profissionalmente.”

Mais complexo é perceber o porquê de Tiago Lila se assumir como uma pessoa transgénero agénero, enquanto Lila Fadista é uma travesti. Orientação sexual, identidade de género, expressão de género e sexo biológico são termos que se reflectem num espectro muito lato, com muitas combinações possíveis. Todas difíceis de meter nas gavetas onde tendemos a querer enfiar tudo o que tenha que ver com sexualidade e afectos. Se lhe somarmos rótulos como cisgénero, transgénero, travesti, transexual ou intersexo, então tudo se complica ainda mais. Vale a pena fazer uma pausa e entender as diferenças.

Quem as explica é João Caçador que, como voluntário da rede ex aequo (uma associação de jovens LGBTI e apoiantes), tem dado formação sobre o tema em escolas públicas.

Orientação sexual – está no coração, relaciona-se com o desejo sexual. Uma pessoa pode sentir-se atraída por pessoas de um género específico, de todos os géneros ou de nenhum.

Identidade de género – está na cabeça, tem a ver com o género com que nos identificamos (se é masculino, feminino, uma combinação de ambos ou nenhum).

Expressão de género – é a forma como uma pessoa se mostra, a sua aparência. É algo percepcionado culturalmente e que varia ao longo do tempo – a maquiagem é uma coisa associada ao género feminino, mas há 500 anos só os homens é que se pintavam.

Sexo biológico – é o sexo medicamente atribuído à nascença de acordo com os órgãos genitais. É comum pressupor-se que o sexo – vulva ou pénis – determina o género, embora isso não seja verdade.

Cisgénero – pessoa a quem o género que lhe foi atribuído à nascença é o mesmo com que ela se identifica.

Transgénero – pessoa que não se identifica com o género que lhe foi atribuído à nascença.

Transexual – pessoa que não se identifica com o género que lhe foi atribuído à nascença e já iniciou o processo de mudança de sexo.

Travesti – pessoa que tem uma expressão de género divergente do género que lhe é socialmente atribuído.

Intersexo – pessoa que tem um sexo biológico considerado ambíguo.

Hermafrodita – termo popularmente usado, de uma forma errada, para definir um intersexo. Médicos, activistas e investigadores usam-no apenas para se referir a animais irracionais e plantas.

Ou seja, pode ter-se uma expressão de género diferente da identidade de género. Por exemplo, uma pessoa pode identificar-se como homem, sentir atracção por mulheres e vestir-se como mulher.

“Não me identifico nem como homem, nem como mulher. Sou agénero. É algo recente na minha vida. Como me assumi como homossexual muito cedo [tinha 12 anos], arrumei a questão de género. Só mais tarde é que percebi que ser homossexual não chega para me definir. Por isso, assumo-me como transgénero – no sentido em que tenho uma identidade de género [agénero] que não coincide com a que me foi atribuída à nascença [masculina]”, explica Tiago Lila.

Até agora, o Fado Bicha tem subido sobretudo a palcos alternativos. Mas também isso está a mudar. No dia 20 de abril, durante o Festival Política, levaram cerca de 500 pessoas ao Cinema São Jorge, em Lisboa. Foi a primeira vez que os pais de João e Tiago assistiram a um concerto e as reacções não podiam ter sido mais diferentes: a mãe de João sentou-se na primeira fila, “completamente babada”, orgulhosa do filho; o pai e a madrasta de Tiago tiveram uma reacção agridoce – a parte doce foi que foram, a parte amarga foi que não teceram nenhum comentário. Ambos concordam que a diferença de atitudes se pode justificar pelos papéis que cada um ocupa na banda: João Caçador projecta a imagem de um homem tradicional, já Lila Fadista tem uma expressão andrógina. Quando lhes perguntamos se aquilo que fazem é arte, não têm dúvidas na resposta: “Claro que sim!”, dizem em uníssono. Uma arte que se assume “política” e “activista”, uma arte que quer desconstruir as fronteiras fixas dos géneros masculino e feminino. Mas não só.

“No final do concerto no São Jorge, perguntaram-nos porque cantámos ‘Mulher do Fim do Mundo’, a música da cantora brasileira Elza Soares. Um homem [branco] veio falar com o Tiago e disse-lhe que aquela não era a nossa luta, que não tínhamos o direito de pegar na bandeira de uma mulher negra e marginalizada e cantá-la. Esta canção é sobre colonialismo, sobre a pele negra, a marginalização, a periferia. Foi uma homenagem à Marielle Franco, que foi assassinada no Rio de Janeiro. E no palco cabe tudo isto. O Fado Bicha quer unir todas as lutas”, projecta João Caçador.

Nesse espectáculo, onde foram aplaudidos de pé, a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Rosa Monteiro, fez as honras, o que levou Lila Fadista a questionar, meio a brincar, meio a sério, se estariam no caminho certo: “Para um projecto que queríamos que fosse provocador e subversivo, ter um concerto aberto por um membro do Governo… Não sei se é motivo de satisfação ou se devíamos arrumar já as trouxas e parar com isto”, disse, logo nos primeiros segundos em que pegou no microfone. Parece que, afinal, a decisão passou por pegar nas trouxas e começar a ocupar novos espaços. Em comemoração do Dia Internacional de Luta Contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia, desfilam em Bragança, na primeira marcha LGBTI da cidade. Uma iniciativa vista com pouco entusiasmo pelo ecossistema político-partidário da cidade transmontana. O voto de congratulação ao evento proposto pelo Bloco de Esquerda contou com 43 abstenções, 18 votos a favor e um contra – o de Fernando Gonçalves, do Partido Social Democrata, que considerou a iniciativa “lamentável”.

“Vamos a Bragança porque é uma cidade do interior e porque queremos muito sair de Lisboa e cantar por todo o país. Fora dos grandes centros urbanos, há menos espaços de usufruto cultural e, consequentemente, menos espaços LGBTI. Vamos possibilitar uma nova discussão, nem que seja por duas horas.”

Sylvia Koonz, eleita a vencedora da primeira edição do concurso Miss Drag Lisboa, em 2017, sai da casa de banho onde passou mais de uma hora em frente ao espelho a transformar-se. Ouvem-se piropos em forma de assobio.

João: “Nossa!”

Lila: “Estás pronta? Já tens tudo o que precisas para levar?”

Sylvia: “Sim, estou é cheia de calor.”

Lila: “Então vamos que já estamos atrasadas.”

Ainda não passa das 11 horas da noite e a sala do bar 49, da associação cultural Galeria Zé dos Bois, já está à pinha: muitos amigos do duo, pessoas da comunidade LGBTI, turistas, outros tantos curiosos. Os que assistem pela primeira vez ao espectáculo não conseguem esconder o espanto. Há uma mulher, na casa dos 30, a quem o amigo até tem de dar uma cotovelada para que saia do estado de aparente hipnose. Parece que Lila sempre fez do fado vida, que não foi há pouco mais de um mês que deixou o seu emprego “a sério” para se dedicar a tempo inteiro à cantoria.

“Lembro-me de uma pergunta que o meu pai me fez aí pelos meus 13 anos, quando tinha acabado de comprar o Ray of Light da Madonna: ‘Achas que a Madonna canta melhor do que a Amália Rodrigues? É que nem lhe chega aos calcanhares!’ E lembro-me de pensar com desdém: ‘mas quem é que quer saber da Amália? Daqui a uns anos, já ninguém se lembra dela’.”

A citação anterior é retirada de um texto do “Queerquivo”, um arquivo online de personalidades LGBTI portuguesas onde Lila Fadista escreveu sobre as suas memórias. E continua: “Cabe dizer que, por esta altura, morreu a minha mãe, de doença prolongada. As minhas avós rendiam-se semana após semana, para vir do campo, tomar conta dela e de mim na cidade. Na escola e na rua onde vivia, sofria abusos diários que maldiziam uma homossexualidade que nem eu conhecia ainda. A minha feminilidade de menino inteligente e sensível era como um mau agouro para o que haveria de vir. Mais tarde, a Amália integrou o grupo de musas que me ajudaram a resgatar a feminilidade desse lugar de tragédia e vergonha e a encontrar força na sua expressão. E a voz… uma voz capaz de tudo, ao mesmo tempo negra, sensual, vulnerável e firme. Que tanto me dava consolo como um colo de mãe como me permitia que a empunhasse como bandeira desfraldada ou que com ela me cobrisse como mortalha.”

Estamos quase no fim do concerto e a voz de Lila deixa de se ouvir na sala. O microfone atraiçoa-os. João Caçador ainda tenta a emenda, mas sem sucesso. Não faz mal. O ambiente é informal e os erros fazem parte da empatia que a banda tem com o seu público. Lila projecta a voz, agora sem amplificador, e a festa segue: “Gostava de sentir mais excitação desse lado, mais pulos, mais gritos, mais fogo interior. Com orgulho da nossa comunidade, do nosso potencial e da nossa riqueza. Vamos tocar a “Marcha do Orgulho” que da primeira vez não correu muito bem. Podem-se levantar se quiserem:

“Lisboa cheia de cor
Terra de tremor a cada Junho
Cascatas de purpurinas
Perucas são crinas
E ao alto o punho
É dia de vir cá para fora
Aqui e agora, pôr o pé no mundo
Tirar a bandeira do armário
É comunitário, num clamor rotundo
Nem menos nem mais
Direitos iguais
São muitas as cores desta minoria
Em cada esquina, amigas
Novas e antigas
Mil bichas em euforia
Política na rua
A minha voz e a tua
Em exaltação e barulho
Nós existimos, amamos e sorrimos
É a Marcha do Orgulho
De megafone apontado
Ao povo e ao Estado
Em vários graus
Trazemos um carnaval
Do Príncipe Real até às naus
É todo um alfabeto
Desde o discreto à mulher trans
É só assim é urgente, com toda a gente
E mais os pais e as mães”

Reportagem realizada em parceria com o projecto de jornalismo independente É Apenas Fumaça.

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Pedro SantosReportagem | É Apenas Fumaça
Ricardo Venâncio LopesFotografia
Sofia da Palma RodriguesReportagem

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